Superheroes are an obvious point of reference for Moffat's run in Doctor Who, not only in his approach to the character ("I mean, life's not a comic book, right, Doctor?" D: "Possibly I'm not the right person to ask"), but in the constitution of his Doctor Who's Universe - which Moffat must have rebooted more times than the Marvel Universe has been in the last couple of years (which are unpopular decisions, I understand, acting against the integrity and continuity of the universe, but, as a comics fan, possible of forgiveness if they are, in some way, good stories).
(I mean, Doctor Who naturally shares an ontology with comics, as a character that persists as its writers change and, as so, must have a flexible characterization, but this would be another digression.)
Getting a superhero in an episode, though, is not only an unavoidable homage. Moffat is constantly playing with doubles: in the essence of The Doctor there is a depth, an indissoluble melancholy that is never made text by the character. He is a tragic character that is never defined by it's tragedy, but, rather, by anything but. Therefore, this essence is consistently approached by indirect means, via characters that reveal their likeness to the Doctor and having them receive our sympathy as he saves his feelings for himself.
In this special, the superhero - as a concept - is a double of The Doctor, one of it's defining qualities. As it is being a Doctor, the man whose name gave our word 'doctor' all of it's meaning. This information, given by the Doctor to a young Grant, is something that is first revealed - and it's noted that a 'double' is also a repetition - by River Song, who's absence is, in this special, at the center of The Doctor's melancholy. Although The Doctor won't make much of a note of her ("What was her name?" D: "I'm sure that I must be busy, I better go", and also Nardone: "But, oh, look at you, avoiding the subject!"), is in referencing such little things that he reveals where his heart currently is.
The Ghost is a riff on Superman, down to a reporter love interest, in a city that has a building with a gyrating planet on top. There's even a reference to Siegel and Shuster. The Doctor discovering the double identity of Clark Kent is actually one of the best scenes
("Take a look at that picture. Now this one. Take a good, long look. It takes a moment to see it. Superman and Clark Kent are one and the same person."
- Are you serious?
"Yeah. Look, I drew specs on Superman."
- Everyone knows they're the same person.
"Well, Lois Lane doesn't. And she's a reporter.")
He leads a double life (as any superhero): the kind and shy boy harboring love for a high school crush, and the hero. The Ghost's arc is the resolution of a simple decision: to stop being a hero and accepting actualizing this love.
The Doctor arc, at this point, is the exact opposite: after losing Clara - to whom he sacrificed millions of years and iterations to punch open a diamond wall, a colossal effort anchored at the Doctor's unshakable resolve (if not his stubbornness), one of his greatest superhero moments -, he lets go of this superhero identity, and embarks on 24 years ("24 years? Yeah, of course it would be that.", also a doubling) of happiness. But this happiness is also melancholic, for his and River's love is doomed -- but so is everything about the Doctor, for even for a Time Lord the time passes and things must come to an end.
The Ghost's arc, so, is The Doctor's absent arc between the last special and this one - which we are not present for, because there must be no happy endings for The Doctor. But, in the nature of the double, there is regeneration, the circularity of time. As The Doctor himself says: "Everything ends. And it's always sad. But everything begins again too, and that's always happy."
Protected, now, by the company of a cyborg - to avoid the hurt of human contact, as is his nature post-heartbreak (see: the Ninth Doctor, until Rose), but also a somewhat memory of River Song -, The Doctor is finally ready to return to be a superhero ("The world will be fine. I've been away for a while, but I'm back.") Which is why, even though The Ghost is a superhero, is The Doctor who (heh) saves the day (I mean, credit where credit is due: The Ghost does holds the ship up, but the Doctor is the one to dismantle Harmony Shoals's plan), even echoing (doubling) the Eleventh Doctor's repeal of the Atraxi ("Who are you? There have been many attempts to conquer the Earth. I've lost count. Not one of them has succeeded, not a single one.They all lost and burned and ran. That's who I am.") another defining moment, by Moffat, of The-Doctor-as-superhero. Which is why this ends with The Doctor's clear cut superhero actualization, as Doctor Mysterio - and everything is ready to begin again.
...
"Why did they call him Spider-Man? Don't they like him?"
-He was bitten by a radioactive spider, and guess what happened?
"Radiation poisoning, I should think."
-No, he got special powers.
"What, vomiting, hair loss and death? Fat lot of use."
trinta dias de cinema
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terça-feira, 3 de janeiro de 2017
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
o ataque a Charlie Hebdo hoje não foi um ataque à Liberdade (de expressão). ele tem, sim, valor de censura, mas a liberdade de expressão já tava sendo exercida. a discussão disso tem fim, apenas, de limitar essa liberdade, de questionar até onde ela vai, ou pode ir.
o ataque é, antes, uma afronta à Igualidade e à Fraternidade - o resultado de tensões políticas-raciais-religiosas que entrecortam a França (e o mundo), que tem por escatologia essa retribuição assimétrica: a morte pela preservação ascética de certos valores. não se reconhece mais a ontologia da humanidade.
que exista quem retribua dessa maneira -- não o islã, não as ideologias terríveis, mas quem tome estes à sua letra extrema, atravessando a dignidade humana -, é esse o crime.
our freedom of speech is freedom of death
o ataque é, antes, uma afronta à Igualidade e à Fraternidade - o resultado de tensões políticas-raciais-religiosas que entrecortam a França (e o mundo), que tem por escatologia essa retribuição assimétrica: a morte pela preservação ascética de certos valores. não se reconhece mais a ontologia da humanidade.
que exista quem retribua dessa maneira -- não o islã, não as ideologias terríveis, mas quem tome estes à sua letra extrema, atravessando a dignidade humana -, é esse o crime.
our freedom of speech is freedom of death
(shantih shantih shantih)
domingo, 7 de abril de 2013
[este blog é apra onde vão os post enormes que eu escrevi e não quero perder, porque vão ser enterrados no fluxo do mundo, ou porque achei que não valia a pena enviar]
(meio necessário eu dizer antes de tudo que não quero ofender ninguém, porque sei que podemse ofender, mas não quero ofender ninguém mesmo, só acho que eu levo em consideração coisas diferentes, que talvez vocês não tenham considerado, enfim)
se acham mais de boa ficar com um cara do que um traveco (o comentário da ***** diz exatamente isso), estão sim dando valores diferentes para duas coisas, em que uma é mais aceitável que a outra. já que a reação geral foi achar o que o cara fez é absurdo, quando todo mundo cagou e andou pro *****, por exemplo, pegar homens, tá, sim, implícito no discurso que uma coisa é mais digna do que a outra.
eu acho curioso, mesmo, como a questão homossexual é estratificada, e já é ~errado~ ser contra homossexuais, mas o transexualismo é uma minoria dentro de outra minoria e é considerado como algo diferente - mas eu não vejo diferença nenhuma nisso, em termos sexuais você tá, de qualquer maneira, lidando com um corpo do mesmo sexo. é mais errado porque é pior um homem querer ser mulher, por não aceitar uma norma social de gênero? eu não acho que nenhum de vocês tá tentando ser preconceituoso, mas esse discurso ~É~ preconceituoso, mesmo que acidentalmente, apenas.
tipo, olha o final do comentário da ****: ~mas daí ela foi lá hoje e ficou com ele outra vez~, "mas" é uma conjunção adversativa, que só faz sentido no discurso se opondo à opção mais ~normal~ que seria ela terminar com o cara - sugestão sua, inclusive - porque, pelo jeito, ele ter ficado com um travesti implica alguma mudança ontológica de valor[ou seja, ele existe agora com um valor diferente]? então, tipo, as pessoas podem existir apenas dentro de certas normas pré-estabelecidas e, se romperem elas, devem ser marginalizadas (porque elas são ~doidas~): o que é, por definição, preconceito.
MAS, eu não acho que a ***** tava querendo falar isso, é claro. só que isso fica implícito nesse tipo de discurso, e é assim que se reafirmam os valores que mantém esse tipo de estratificação funcionando e o preconceito existindo. de novo: não tô, mesmo, querendo chamar ninguém de preconceituoso, acho todos vocês boas pessoas, e se alguém se ofendeu peço desculpas, de verdade.
(meio necessário eu dizer antes de tudo que não quero ofender ninguém, porque sei que podemse ofender, mas não quero ofender ninguém mesmo, só acho que eu levo em consideração coisas diferentes, que talvez vocês não tenham considerado, enfim)
se acham mais de boa ficar com um cara do que um traveco (o comentário da ***** diz exatamente isso), estão sim dando valores diferentes para duas coisas, em que uma é mais aceitável que a outra. já que a reação geral foi achar o que o cara fez é absurdo, quando todo mundo cagou e andou pro *****, por exemplo, pegar homens, tá, sim, implícito no discurso que uma coisa é mais digna do que a outra.
eu acho curioso, mesmo, como a questão homossexual é estratificada, e já é ~errado~ ser contra homossexuais, mas o transexualismo é uma minoria dentro de outra minoria e é considerado como algo diferente - mas eu não vejo diferença nenhuma nisso, em termos sexuais você tá, de qualquer maneira, lidando com um corpo do mesmo sexo. é mais errado porque é pior um homem querer ser mulher, por não aceitar uma norma social de gênero? eu não acho que nenhum de vocês tá tentando ser preconceituoso, mas esse discurso ~É~ preconceituoso, mesmo que acidentalmente, apenas.
tipo, olha o final do comentário da ****: ~mas daí ela foi lá hoje e ficou com ele outra vez~, "mas" é uma conjunção adversativa, que só faz sentido no discurso se opondo à opção mais ~normal~ que seria ela terminar com o cara - sugestão sua, inclusive - porque, pelo jeito, ele ter ficado com um travesti implica alguma mudança ontológica de valor[ou seja, ele existe agora com um valor diferente]? então, tipo, as pessoas podem existir apenas dentro de certas normas pré-estabelecidas e, se romperem elas, devem ser marginalizadas (porque elas são ~doidas~): o que é, por definição, preconceito.
MAS, eu não acho que a ***** tava querendo falar isso, é claro. só que isso fica implícito nesse tipo de discurso, e é assim que se reafirmam os valores que mantém esse tipo de estratificação funcionando e o preconceito existindo. de novo: não tô, mesmo, querendo chamar ninguém de preconceituoso, acho todos vocês boas pessoas, e se alguém se ofendeu peço desculpas, de verdade.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
humor!
(é sobre esse documentário: http://www.youtube.com/watch?v=PRQ1LuBWoLg
e escrevi isso como resposta num fórum, então o número 1 tá meio sem contexto, mas é importante no 2, então enfim)
1 - eu gosto do carlin. ele não é muito engraçado e o que ele faz é mais uma espécie de ensaio do que stand up, mas eu acho que ele ocasionalmente levanta alguns bons pontos e, enfim, eu gosto de ouvir as pessoas falando. não acho ele nocivo, apesar de superestimado, mas ele é super com uma certa razão: o que ele fazia era bem específico e mais substancial do que o que faziam mesmo os melhores stand ups da época. aliás, o louis ck ~é~ o novo carlin (mesmo que meio a contragosto, porque ele não é especificamente político): o stand up dele vem se transformando gradativamente - os primeiros especiais dele eram bem mais baseados em piadas, tinham imitações, eram menos uma narrativa sobre a vida dele e tal. e o loius ck é abertamente fã do carlin, falou no memorial dele e chorou, e meio escancarou essa mudança de paradigma no humor dele (que é menos engraçado, mas mais recompensante, um humor cada vez mais melancólico e profundo, e a série é onde isso chega ao ápice, pegando meio a tensão entre a postura confrontacional de liberação/humor do stand up e a ansiedade social observacional e intimista de onde surge o texto)
2 - tem uma mulher no começo do documentário que levanta um ponto que eu acho que passa sempre meio batido, de que muito do humor vem de uma subversão da narrativa (ela chama de quebra, enfim) que é meio amoral.
tipo, pegando o próprio louis ck, ele com muita frenquência é racista e preconceituoso, mas nunca é ofensivo porque a inserção disso é como uma anomalia do discurso, como non sequitur, quebrando o andamento da história de uma maneira escatológica, mas o discurso maior (político) do stand up permanece - ele faz, por exemplo, piadas de estupro, mas o estupro tá sempre inserido como agresão, nunca como prática sexual, que é um dos pontos que a lola levanta no documentário.
e isso é que fode nesse stand up brasileiro de merda, é um problema não só temático, mas formal: o preconceito não tá lá como um corpo estranho, mas como a ordem do discurso; ele não é o que ofende pelo absurdo, ele é a conclusão lógica de uma cultura real, enfim, não é a variação da narrativa, é a própria narrativa. outro aspecto formal que é babaca é o próprio refinamento da apresentação, mesmo. tipo, olha no documentário quantas piadas começam com ~ela é tão gorda que~, ~ela é tão feia que~, que basicamente anulam a possibilidade do insight e, né, estrutura determinista, reducionista, me escapa a palavra certa, enfim. o que fode aqui é isso, a noção de que fazer rir é mais importante, como se não existisse no discurso público uma responsabilidade política, e como se problematizar isso fosse uma questão de censura, e não de autocrítica (não a toa os caras que reclamam disso são os que baseiam a persona artística deles inteira em ser arrogantes, mais inteligentes que todo mundo, acima do bem e do mal, etc).
3 - de resto, meio esperado: os caras que fazem coisas boas têm opiniões boas, os que fazem coisas ruins têm opiniões retardadas. nada surpreendente, né.
e escrevi isso como resposta num fórum, então o número 1 tá meio sem contexto, mas é importante no 2, então enfim)
1 - eu gosto do carlin. ele não é muito engraçado e o que ele faz é mais uma espécie de ensaio do que stand up, mas eu acho que ele ocasionalmente levanta alguns bons pontos e, enfim, eu gosto de ouvir as pessoas falando. não acho ele nocivo, apesar de superestimado, mas ele é super com uma certa razão: o que ele fazia era bem específico e mais substancial do que o que faziam mesmo os melhores stand ups da época. aliás, o louis ck ~é~ o novo carlin (mesmo que meio a contragosto, porque ele não é especificamente político): o stand up dele vem se transformando gradativamente - os primeiros especiais dele eram bem mais baseados em piadas, tinham imitações, eram menos uma narrativa sobre a vida dele e tal. e o loius ck é abertamente fã do carlin, falou no memorial dele e chorou, e meio escancarou essa mudança de paradigma no humor dele (que é menos engraçado, mas mais recompensante, um humor cada vez mais melancólico e profundo, e a série é onde isso chega ao ápice, pegando meio a tensão entre a postura confrontacional de liberação/humor do stand up e a ansiedade social observacional e intimista de onde surge o texto)
2 - tem uma mulher no começo do documentário que levanta um ponto que eu acho que passa sempre meio batido, de que muito do humor vem de uma subversão da narrativa (ela chama de quebra, enfim) que é meio amoral.
tipo, pegando o próprio louis ck, ele com muita frenquência é racista e preconceituoso, mas nunca é ofensivo porque a inserção disso é como uma anomalia do discurso, como non sequitur, quebrando o andamento da história de uma maneira escatológica, mas o discurso maior (político) do stand up permanece - ele faz, por exemplo, piadas de estupro, mas o estupro tá sempre inserido como agresão, nunca como prática sexual, que é um dos pontos que a lola levanta no documentário.
e isso é que fode nesse stand up brasileiro de merda, é um problema não só temático, mas formal: o preconceito não tá lá como um corpo estranho, mas como a ordem do discurso; ele não é o que ofende pelo absurdo, ele é a conclusão lógica de uma cultura real, enfim, não é a variação da narrativa, é a própria narrativa. outro aspecto formal que é babaca é o próprio refinamento da apresentação, mesmo. tipo, olha no documentário quantas piadas começam com ~ela é tão gorda que~, ~ela é tão feia que~, que basicamente anulam a possibilidade do insight e, né, estrutura determinista, reducionista, me escapa a palavra certa, enfim. o que fode aqui é isso, a noção de que fazer rir é mais importante, como se não existisse no discurso público uma responsabilidade política, e como se problematizar isso fosse uma questão de censura, e não de autocrítica (não a toa os caras que reclamam disso são os que baseiam a persona artística deles inteira em ser arrogantes, mais inteligentes que todo mundo, acima do bem e do mal, etc).
3 - de resto, meio esperado: os caras que fazem coisas boas têm opiniões boas, os que fazem coisas ruins têm opiniões retardadas. nada surpreendente, né.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
considerações acerca de
http://www.notaderodape.com.br/2012/11/sob-ataque-e-sem-controle.html
bem intencionado, mas meio frouxo
tipo, acho mais válido considerar o crescimento da cidade junto ao crescimento da violência - a violência cresce com a cidade, mas a cidade não tem nem espaço nem estrutura para abraçar esse crescimento (a situação das cadeias é análoga, não um efeito à parte). florianópolis é uma cidade grande que ainda não se sabe grande, que ainda se imagina pequena, turística e paradisíaca. florianópolis é uma cidade em negação.
os pontos sobre a polícia são bem problemáticos. tipo: Ou seja, continuaram lá, provavelmente agindo da mesma maneira. - como assim ~provavelmente~? ou você vai lá e questiona essa situação (pergunta sobre o controle que a instituição mantém sobre seus agentes, pede pra ver, etc, exige algum tipo de transparência na ação da entidade - se derem, ok, você deixa essa parte passar, se não derem você questiona e problematiza esse protecionismo possivelmente nocivo e criminoso) ou isso não cabe na matéria. entendo o sentimento da afirmação, mas ela em si, assim solta, é de muito mal gosto. (aliás, esse é um problema que eu ando tendo com o jornalismo: a falta de responsabilidade que tá implícita no jornalismo como uma coisa datada, passageira; o jornalismo deveria tomar uma posição de pressão, e revisitar esse tipo de coisa acontecimento/denúncia de tempo em tempo: a gente reclama da gerência da cidade, mas enquanto profissionais nós também reagimos de susto em susto)
é ok citar a lei do talião e o beccaria, mas, ao mesmo tempo, se você quiser entrar nos méritos de filosofia do direito, é meio foda parar num cara de 1764. entendo que a intenção é mostrar que a mentalidade que manda hoje tá ultrapassada quase 300 anos, mas você abriu um diálogo muito maior e deixou ele incompleto. tipo, dizer que o talião só não funciona é meia boca, e não é como se fosse difícil achar algum filósofo moderno (ou professor de filosofia, ou direito) para te dar uma citação que valide essa afirmação. tipo, é pra ser jornalismo, né?
na mesma veia, não é especificamente complicado encontrar alguém da polícia que expresse os sentimentos da polícia (que, para eles, justificam suas ações), mesmo que se omita o nome, que seja um cabo ou um soldado, até porque os oficiais são figuras públicas que têm uma carreira política, então se manifestam com restrições, etc. o problema da violência não é só a violência, mas é a cultura e o ambiente que cria ela. a polícia é uma força de controle, e o problema real é esse: ela não age com força-pela-força, ela age como uma força de imobilidade (então claramente anti-manifestação, se pá anti-social-democracia [forcei a barra, haha, mas acho isso meio verdade]) - e talvez a verdadeira questão seja como é que ela é validada, ou que deve se comportar dentro desse sistema de valores e direitos humanos? e isso retorna ao problema lá do começo da minha reclamação, de uma incompetência gerencial, de florianópolis se ver pela sua própria utopia, e não pela sua realidade.
de qualquer maneira, achei bem relevante.
bem intencionado, mas meio frouxo
tipo, acho mais válido considerar o crescimento da cidade junto ao crescimento da violência - a violência cresce com a cidade, mas a cidade não tem nem espaço nem estrutura para abraçar esse crescimento (a situação das cadeias é análoga, não um efeito à parte). florianópolis é uma cidade grande que ainda não se sabe grande, que ainda se imagina pequena, turística e paradisíaca. florianópolis é uma cidade em negação.
os pontos sobre a polícia são bem problemáticos. tipo: Ou seja, continuaram lá, provavelmente agindo da mesma maneira. - como assim ~provavelmente~? ou você vai lá e questiona essa situação (pergunta sobre o controle que a instituição mantém sobre seus agentes, pede pra ver, etc, exige algum tipo de transparência na ação da entidade - se derem, ok, você deixa essa parte passar, se não derem você questiona e problematiza esse protecionismo possivelmente nocivo e criminoso) ou isso não cabe na matéria. entendo o sentimento da afirmação, mas ela em si, assim solta, é de muito mal gosto. (aliás, esse é um problema que eu ando tendo com o jornalismo: a falta de responsabilidade que tá implícita no jornalismo como uma coisa datada, passageira; o jornalismo deveria tomar uma posição de pressão, e revisitar esse tipo de coisa acontecimento/denúncia de tempo em tempo: a gente reclama da gerência da cidade, mas enquanto profissionais nós também reagimos de susto em susto)
é ok citar a lei do talião e o beccaria, mas, ao mesmo tempo, se você quiser entrar nos méritos de filosofia do direito, é meio foda parar num cara de 1764. entendo que a intenção é mostrar que a mentalidade que manda hoje tá ultrapassada quase 300 anos, mas você abriu um diálogo muito maior e deixou ele incompleto. tipo, dizer que o talião só não funciona é meia boca, e não é como se fosse difícil achar algum filósofo moderno (ou professor de filosofia, ou direito) para te dar uma citação que valide essa afirmação. tipo, é pra ser jornalismo, né?
na mesma veia, não é especificamente complicado encontrar alguém da polícia que expresse os sentimentos da polícia (que, para eles, justificam suas ações), mesmo que se omita o nome, que seja um cabo ou um soldado, até porque os oficiais são figuras públicas que têm uma carreira política, então se manifestam com restrições, etc. o problema da violência não é só a violência, mas é a cultura e o ambiente que cria ela. a polícia é uma força de controle, e o problema real é esse: ela não age com força-pela-força, ela age como uma força de imobilidade (então claramente anti-manifestação, se pá anti-social-democracia [forcei a barra, haha, mas acho isso meio verdade]) - e talvez a verdadeira questão seja como é que ela é validada, ou que deve se comportar dentro desse sistema de valores e direitos humanos? e isso retorna ao problema lá do começo da minha reclamação, de uma incompetência gerencial, de florianópolis se ver pela sua própria utopia, e não pela sua realidade.
de qualquer maneira, achei bem relevante.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Primeira Verdade Universal do meu universo
Não se deve falar de uma arte através dela mesma: escrever sobre literatura, filmar sobre cinema, falar sobre a fala, fotografar sobre a fotografia, teatralizar sobre o teatro. As artes devem falar sobre outra arte, e sempre.
Deve-se falar sobre a literatura, escrever sobre o cinema, filmar a fala. Nunca nada que vá contra o fluxo natural da crítica. A noção de crítica como um texto é uma ESTUPIDEZ. Toda crítica é uma peça, sua própria arte, com seu próprio vocabulário, estilo, identidade.
Deve-se falar sobre a literatura, escrever sobre o cinema, filmar a fala. Nunca nada que vá contra o fluxo natural da crítica. A noção de crítica como um texto é uma ESTUPIDEZ. Toda crítica é uma peça, sua própria arte, com seu próprio vocabulário, estilo, identidade.
sábado, 2 de abril de 2011
cenas de sete anos em três meses
(...) porque não via mais uma casa ou uma vida, ou sua identidade nas árvores verdes ou no mar, mas um novo lugar imaginário, uma cidade espiritual que era a beira da praia numa noite fria, com os amigos sentados num círculo e seus olhos iluminados pelas estrelas, reconhecendo-se apenas com a certeza de cada uma das vozes, saindo de dentro do silêncio (que era o da praia tanta quanto era o silêncio fora da janela), dizendo o que diziam e também quem eram; e era o sol de fome daquelas manhãs azuis pela janela-ao-avesso da casa de praia, transbordando dia preguiçosamente na mesa bagunçada de copos sujos e facas usadas, atravessando os vidros e as roupas transparentes, enquanto pelos bocejos ainda úmidos de sereno tocava o som desafinado de um violão recém-desperto; também a calçada de pedras, montada num padrão de onda, e os muitos sapatos coloridos que caminhavam sobre ela, tropeçando em si mesmos e nos outros; e a geladeira que dava choque nas beiradas, o fogão sem tampo, a pia cheia que ninguém queria lavar; ou as casas com três quartos, que dormiam com dois deles vazios, porque todos dividiam o mesmo, acarpetando o chão com os corpos seminus de calor, e o som das respirações pesadas pela escuridão, e os rostos antes de lavados olhando uns para os outros, as vozes duras, a preguiça estampada nos olhos, o revirar na cama como filhotes com tanta vida pela frente que podiam desperdiçar um dia ou dois; e as noites que pareciam durar um eternidade, até a manhã arriscar clarear o sol e tudo parecer que aconteceu muito rápido e apressado, e nós comíamos algum sanduíche, bêbados do resto de álcool e de sono e de amor, rindo (e compartilhando) dos nossos maiores arrependimentos, sentido a dor de acordar no outro dia, mas já marcando o próximo suicídio pelos bares escuros, envolvidos pelas mesmas músicas, caindo eventualmente nos mesmos abraços quando encontrávamos uns aos outros depois de perdidos por horas, mesmo aprisionados no mesmo espaço; (...)
sexta-feira, 11 de março de 2011
vinteduas discreções para vintedois anos
(proposta de um amigo, vamos ver no que dá)
01 Eu canto ou assovio quando estou puto, mas não tenho tesão-intimidade para (ou não acho que valha a pena) refutar o absurdo que a pessoa falou, ou simplesmente mandar ela tomar no cu.
02 Eu também canto aparentemente o tempo todo, inclusive enquanto as pessoas estão falando comigo e essa é, ao que tudo indica, a minha mania mais absolutamente revoltante e odiosa. Pontos de bônus quando eu estou cantando alguma música em japonês.
03 Sempre que eu como alguma comida nova, eu faço careta. Sempre, mesmo que eu acabe achando uma delícia. Eu faço isso desde que eu nasci, é aparentemente genético e incontrolável.
04 Sobre comida: eu não como tomate, nem azeitona. Acho azeitona especialmente desagradável. Também não como ketchup, maionese, mostarda, condimentos em geral - em geral, até o cheiro deles tira um pouco do meu tesão em comer, e não gosto nem de encostar neles; sim, é muita frescura. Curto demais pimenta.
05 Uma Verdade Inconveniente: eu estou muito perto de começar a comer tomate. No dia que isso acontecer, vou ser obrigado a fazer uma cirurgia nos olhos, adotar uma largatixa e parar de escrever, porque vou claramente estar abrindo mão da minha identidade.
06 Acho essencial que uma pessoa queira cozinhar. Não precisa cozinhar para mim, nem cozinhar todo dia. É a filosfia por trás da coisa que eu acho fundamental. Escrever também.
07 Eu não acho que tenha sempre razão, honestamente. Eu gosto muito do processo de argumentação, porém, e acabo sendo desnecessariamente insistente na defesa de coisas na qual eu não acredito. (O jeito mais fácil de me vencer numa discussão inútil costuma ser o simples apontamento de que eu não acredito no que estou dizendo.) Também sou contra valores absolutos, exceto os perpetuados por mim mesmo.
08 Eu realmente gosto de escrever e das palavras e dos significados delas e essas coisas todas. Eu tento ao máximo não falar nisso porque acho cansativo demais para as outras pessoas.
09 Na mesma veia, eu quase chorei na última vez que tava fazendo o vestibular, porque tinha uma poesia do João Cabral de Melo Neto (bem aquela mais famosa mesmo) e um pedaço de um conto do Guimarães Rosa e era quase lindo demais para segurar dentro. Foi tipo uma experiência religiosa. Aconteceu muito recentemente enquanto eu tentava explicar para alguém como é ridiculamente linda a letra de João e Maria, também.
10 Confio demais no meu julgamento do caráter alheio, mas torço muito mais para que as pessoas me surpreendam.
11 Eu costumo ser muito-muito honesto/justo. Meu pai me disse isso quando eu era bem mais novo e sempre achei um motivo de orgulho, mesmo sabendo que não é.
12 Metade das expressões que as pessoas acham que eu faço expontaneamente, eu faço de propósito. E me aproveito disso basicamente a minha vida inteira. Também acho que eu não devia revelar isso, porque é muito sujo (mesmo não parecendo).
13 Faço careta quando vejo câmera. É outra reação expontânea.
14 Tenho medo de lagartixa, mas isso vem melhorando. Aliás, tenho medo de (ou uma gritante ressalva a) basicamente todo ser vivo não-humano não-domesticado.
15 Minhas mãos são nervosas e eu preciso ficar mexendo em alguma coisa o tempo todo. Quando eu não estou destruindo alguma coisa, eu normalmente estou cutucando a minha barba.
16 Eu acredito sinceramente que a primeira metade do ano de 2010 não tenha existido. Não tenho nenhuma lembrança de nada que tenha acontecido num período de uns 8 meses. De setembro à começo de dezembro, porém, passaram uns 7 anos.
17 A coisa mais baixa que eu posso sentir em relação a alguma coisa (ou alguém) é nojo. E, ao que tudo indica, é um estado de espírito irremediável.
18 hehe é a resposta mais odiosa que se pode dar para qualquer coisa. Eu literalmente já parei de falar (e ficar) com gente que usava isso demais.
19 Não tenho paciência para gente falando apaixonadamente de religião ou qualquer tipo de crença, incluindo não-crença. Acho apenas a poesia metafísica e, ao mesmo tempo, absolutamente inútil.
20 Me comparam demais com personagens de desenhos animados/hqs. Meus favoritos provavelmente foram Garfield, Bloo e Wallace Wells.
21 Outras piores manias: jogar FreeCell, ligar a televisão toda vez que chego em casa, ou deito na cama.
22 Eu só não fiz faculdade de Cinema no terceirão porque eu acreditava que em faculdade de artes só entra gente burra, oba-oba e metida a rebelde. Continuo achando tudo isso, mas hoje faria porque não sou mais uma pessoa tão séria, acho.
quinta-feira, 3 de março de 2011
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Pensamentos Autônomos Sobre Arte da Semana
* Red, do King Crimson (a música, principalmente), tem uma coisa de Magma muito forte (possivelmente o contrário, já que puxa demais à De Futura, que é posterior), o mesmo abafamento construtivo-arquitetal do Zeuhl, altamente auto-envolvente e intelectual (e foda). A grande diferença é a inevitável e gloriosa explosão ao fim de Starless, um dos ápices da música (sem restrições, música como todo o universo de coisas melodiosas e não-melodiosas que envolvem sons e devaneios, ou palavras escritas, ou corações batendo, enfim).
* A expressão Guerra Civil Espanhola me enche de um carinho absolutamente lindo e me remete imediatamente ao conto da execução dos fascistas da cidade que me escapa o nome, em Por Quem Os Sinos Dobram, como contado pela Pilar. Eu não tenho nenhuma certeza de até que ponto a imagem que se forma na minha cabeça foi descrita no livro (o Hemingway é bem econômico, convenhamos), mas na hora se forma o retrato de um chão de pedras escuras e azuladas num quase roxo que traça uma linha contra o horizonte; por trás dessa linha: o mar, como se o chão em si levasse a um desfiladeiro construído pelos homens; o mar é de um azul escuro, o céu de um azul claro, o sol quase branco, as casas ao redor de cores levemente manchadas e comidas pelo tempo e a maresia, e ao mesmo tempo tudo parece ter um cor linda de trigo; e muitas pessoas, que vêm surgindo de onde meus olhos não podem ver, mas muito distantes, através de mim, e caminham não raivosos e monstruosos, mas com um ímpeto muito forte; enfim. Em resumo: nessa semana me dei conta que esse é um dos meus livros favoritos.
* James Blake é o novo Brian Wilson (por algum motivo isso me dá vontade de comparar alguém aos Beatles, então eu escolho o Panda Bear como novo John Lennon, but not really). Tem uma coisa muito triste nas composições dele (que é uma coisa meio natural do estilo, do sentimento natural da geração, da textura natural das paisagens eletrônicas, levemente impessoais, distorcendo tudo para um mesmo auto-tunado tom perfeito, impermissível e ascéptico), e ao mesmo tempo orquestral/sinfônica nas combinações de harmonias e recortes sobrepostos; a música dele é certamente mais espaçada (é como se mal existissem melodias, cada nota aparece ao seu tempo e ou se repete ou se estende interminavelmente, enquanto outra surge do rastro que essa deixa, e assim por diante) e minimalista, mas tem um mesmo fantasma por trás. Esperamos que ele não fique louco. Ele também é mais novo que eu e isso me deixa triste.
* A expressão Guerra Civil Espanhola me enche de um carinho absolutamente lindo e me remete imediatamente ao conto da execução dos fascistas da cidade que me escapa o nome, em Por Quem Os Sinos Dobram, como contado pela Pilar. Eu não tenho nenhuma certeza de até que ponto a imagem que se forma na minha cabeça foi descrita no livro (o Hemingway é bem econômico, convenhamos), mas na hora se forma o retrato de um chão de pedras escuras e azuladas num quase roxo que traça uma linha contra o horizonte; por trás dessa linha: o mar, como se o chão em si levasse a um desfiladeiro construído pelos homens; o mar é de um azul escuro, o céu de um azul claro, o sol quase branco, as casas ao redor de cores levemente manchadas e comidas pelo tempo e a maresia, e ao mesmo tempo tudo parece ter um cor linda de trigo; e muitas pessoas, que vêm surgindo de onde meus olhos não podem ver, mas muito distantes, através de mim, e caminham não raivosos e monstruosos, mas com um ímpeto muito forte; enfim. Em resumo: nessa semana me dei conta que esse é um dos meus livros favoritos.
* James Blake é o novo Brian Wilson (por algum motivo isso me dá vontade de comparar alguém aos Beatles, então eu escolho o Panda Bear como novo John Lennon, but not really). Tem uma coisa muito triste nas composições dele (que é uma coisa meio natural do estilo, do sentimento natural da geração, da textura natural das paisagens eletrônicas, levemente impessoais, distorcendo tudo para um mesmo auto-tunado tom perfeito, impermissível e ascéptico), e ao mesmo tempo orquestral/sinfônica nas combinações de harmonias e recortes sobrepostos; a música dele é certamente mais espaçada (é como se mal existissem melodias, cada nota aparece ao seu tempo e ou se repete ou se estende interminavelmente, enquanto outra surge do rastro que essa deixa, e assim por diante) e minimalista, mas tem um mesmo fantasma por trás. Esperamos que ele não fique louco. Ele também é mais novo que eu e isso me deixa triste.
domingo, 16 de janeiro de 2011
2010
1 livro:
Gilles Deleuze - Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia
(ou Fragmentos de um Discurso Amoroso, do Barthes
com Anna Kariênina como o grande tour de force literário de ano)
5 Músicas:
Cake - Frank Sinatra
Eddie Hazel - California Dreamin
Joanna Newsom - Soft as Chalk
Caetano Veloso - Maria Bethânia
Los Hermanos - Retrato pra Iaiá
(Menção honrosa para Kids, do MGMT e Karen do The National)
2 Porres Homéricos:
Rum & Donovan, em setembro
Festa a fantasia do Design, em novembro (a pergunta que não quer calar: onde eu estava na hora da macarena? eu não sei.)
Gilles Deleuze - Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia
(ou Fragmentos de um Discurso Amoroso, do Barthes
com Anna Kariênina como o grande tour de force literário de ano)
5 Músicas:
Cake - Frank Sinatra
Eddie Hazel - California Dreamin
Joanna Newsom - Soft as Chalk
Caetano Veloso - Maria Bethânia
Los Hermanos - Retrato pra Iaiá
(Menção honrosa para Kids, do MGMT e Karen do The National)
2 Porres Homéricos:
Rum & Donovan, em setembro
Festa a fantasia do Design, em novembro (a pergunta que não quer calar: onde eu estava na hora da macarena? eu não sei.)
domingo, 2 de janeiro de 2011
filosofias da iliteratura: quem é artista e o que mais eu não sei
isso é para dizer, paixão, que vivemos errado
o processo ganha da obra, porque o artista nunca leva a obra com ele, mas o processo e apenas ele (um escritor não se lê, nem diretor se vê); a relação com a obra é a arquitetura, nunca o resultado, que é perdido - o público, por outro lado, conhece a obra apenas quando ela se desenrola pronta, revela-se; a revelação do artista é abstrata, é a idéia-chama-inspiração, quando a obra é o trabalho e o processo o resultado (onde pode morar a revelação, também. fazendo um ciclo, que chega a:).
isso porque ao artista vale a arte e a vida é a arte (a arte da vida: je vous salue, sarajevo), o que os outros tocam em seguida é a morte --
parênteses: em matadouro5, sobre os extraterrestres (bear with me) que podem rever o tempo todo a vida, e consideram que a morto é uma situação temporariamente ruim, porque os momentos melhores, do passado, estão acontecendo também, sempre, e tudo vira uma questão de foco; nós vivemos apenas no presente e no potencial de futuro, porque o passado é abandonado o tempo todo, inevitavelmente (mesmo que não esquecido, e aí não é arte, é saudade ou dor), mas a morte é a perda do potencial do futuro, com a impossibilidade natural do passado, fazendo com que ela seja o presente eterno; e a experiência do presente é meramente de reação, passiva, de expectativa; assistir a arte não é viver a arte, é ser morto; o artista só existe quando está realizando arte. parênteses fechados.
enquanto sarajevo, da arte que acontece, a concepção de cultura, de percepção do público, do leitor, nasce a opressão. faz arte de mão contrária, vai de oposto, porque tende à assepsia, à técnica; a arte é vida e vida tem que ser honesta, sentida (de dor e de amor, de preferência juntos), a técnica é filha da obra, nunca do processo, porque todo processo é caos e erro, nem por isso não faz obras lindas e falhas (toda falha é nossa força, todo mundo odeia no outro o que um dia fez o amor; odiamos e amamos exatamente o mesmo pedaço), porque honestas; e honestidade enche de valor o que um dia pareceu vazio - a superfície da técnica endurecendo processo, o ensaio sobre ensaio, o desespero de achar a voz certa, o exercício de relaxamento (tudo merda, tudo te fazendo o outro artista, tudo matando o artista que acorda porque tem que escreverfilmarcantar) -, porque a cultura mata a arte, mata o artista; todo mundo é artista, menos quem se acha artista, que acha que a sensibilidade que lhe dói, dói mais que os outros; artista é o outro, virando autor da tua obra (beijos, barthes), fazendo analogia da tua revolução, sendo o deus do teu mundo da fantasia; aprender a viver como artista, a ser grande, a ser bom, é aprender a ser o outro ser estranho de si mesmo, sem a vontade da arte da arte (repetição proposital), vivendo arte, sendo corpo sem órgãos (ah, deleuze, te odiei mas hoje te sinto falta; nem faz tanto tempo, mas esse dezembro que foi voando foi muito pro meu coração), sendo paixão e força adiante, como se não pudesse evitar a vida arte se fazendo, sem controle.
enfim, todo grande poeta nasceu para ser servidor público, para não manchar a arte com a cultura venenosa que faz o artista local-artista (achando que ler shakespeare faz bem pro coração); A POESIA É A SERIEDADE MORTA DA ALMA, que só vê vida no poeta que a escreveu, revivendo o passado (a arte para o artista é uma máquina do tempo / e é por isso, meu amor, que eu não me leio mais).
domingo, 28 de novembro de 2010
monólogo quebrado sobre nada
ou discurso de gêneros na faculdade de lugar nenhum
põe-se que feminismo vem de feminino, o que o extrema ao masculismo, não ao machismo - a postura machista constrói a imagem da mulher-fêmea, em bases biológicas: menos muscular, mais responsável pelos filhos, geratriz, enfim.
propõe-se, então, que a batalha de gênero é em essência biológica, que a biologia é ciência-e-fato, e que o homem-ser é igualmente animal, irresolutamente. a própria definição como uma libertação sexual, já admite a noção de um retrocesso ao aspecto instintivo (aposto ao civil/racional), objetivando uma igualdade de comportamento animal dentro da sociedade. (o feminismo não pode existir apenas para as mulheres fazerem sexo sem culpa.)
há uma concepção levemente enganada, aí, porque a luta nunca é contra a opressão. toda opressão é uma impressão, desde que não trate de força; a indução à culpa pelo sexo, por exemplo, existe como uma falha de conceito, não como um julgamente moral externo. o papel do feminismo (e toda outra corrente de pensamento de gênero) é o de desenvolvimento de uma linguagem e de um lugar do gênero em questão.
porque o feminismo não percebe as possibilidades qualificativas de ser mulher: a questão não é onde a mulher, oprimida pelo machismo (até verdade, mas conceitualmente livre), é colocada: mas onde ela deveria estar. a busca pela liberdade do gênero não pode existir apenas como uma destruição, mas como a preservação de valores intrínsecos ao gênero.
em exemplo básico, a mulher arrisca biologicamente muito mais no sexo do que o homem, porque o papel dela é mais essencial. o romantismo da criação da vida, da maternidade, é execrado na necessidade de sexo sem consequência, etc.
cansei.
domingo, 1 de agosto de 2010
La Notte (Antonioni, 1961)
Eu vejo uma ligação clara entre as produções do Antonioni e do Godard - apesar delas serem obviamente distintas, pela simples questão autoral de estilo; Godard muito mais novo e pós-moderno, enquanto Antonioni é muito mais formal (embora, com o passar dos anos, ele foi se tornando cada vez mais visceral, talvez até... adolescente? rock'n'roll, sexo, low lifes, etc - fruto da sua inserção no mercado inglês-americano? talvez sua visão cinista da América? Profissão: Repórter é um filme sobre perda da identidade e fruto de um parto longo - considerando a freqüência e o vigor que ele experimentou até ~62, também seu terceiro filme americano, etc etc); mas ambos parecem dividirem uma mesma alma, um mesmo número de valores - romances em crise, palavras sobre sentimentos, personagens artistas ou de comportamento artísticos, alienação & contato, etc.
A Noite me parece intimamente conectado a'O Desprezo, dois contos sobre o desfalecer de uma relação, apesar das abordagens diferentes - a criação de Godard é obviamente mais orgânica, resolvida em brilhantes quase hora de conversas e discussões, de onde as informações, motivos, vontades e sentimentos são escavados pelo confrontante, etc. O formalismo do Antonioni, por outro lado, apresenta composições que iniciam a peça com já um rompimento, igualmente sútil aos motivos de Bardot, mas mais graficamente expostos.
Subjetivo (verbo), meu próprio coração agora partido: estranhava a forma como o casal principal tinha facilidade em separar-se, cada um inevitavelmente seguindo seu caminho. Mastroiani, após ter sucumbido ao ataque da - diria louca, mas pode ser uma coisa mais moralista, uma mulher livre (o que ela certamente era) - entra eufórico/apavorado no carro, mas olha Moreau como se algo nela tivesse mudado, ao invés de algo nele. É ele quem, inevitavelmente atraído por e entregue a outras mulheres, começa a estranhar a presença dela - isso poderia ser lido, talvez, pelo comportamento dele como uma natureza; enquanto o comportamento dela é uma mudança -, já que ele não tem o impulso de sobrepôr a distância entre ambos (numa cena que ressalta essa oposição, Antonioni enquadra uma linha negra entre Monica Vitti e Mastroiani, que num movimento a sobrepõe, cortando o que os separa; a câmera se move novamente, colocando a linha entre os dois mais uma vez, dessa vez esperando uma ação dela, que não acontece - a ação dele sem qualquer paralelo em seus enquadramentos com Moreau); ao fim, vem a luz que o comportamento evasivo dela é um processo de introspecção: sua história acontece dentro, mais do que fora; ela eternamente presa nos segundos antes de intervir na luta de rua, tomando uma posição apenas quando uma das pessoas se machuca (ela, na relação; sendo inevitável que os dois saiam sangrando); pelo mesmo motivo, seu biuld up de affair mudo, um jogo de sombra e luz; a mulher como sentimento; ironia que ele seja um escritor? talvez, mas certamente é uma ironia que ele seja citado para si mesmo e, então, irreconheça seus antigos sentimentos e possa, enfim, perceber o fim.
Também: não há enquadramento que não seja brilhante, ou cena que não tenha significado. Ando avesso a filmes longos, mas duas horas pareceram pouco; enfim, até dois anos são pouco para o amor. Engraçado como é libertador ver alguma coisa e lembrar toda a paixão que se sente, ou já se sentiu, em relação a ela, mas esse não deve ser o melhor filme para isso.
A Noite me parece intimamente conectado a'O Desprezo, dois contos sobre o desfalecer de uma relação, apesar das abordagens diferentes - a criação de Godard é obviamente mais orgânica, resolvida em brilhantes quase hora de conversas e discussões, de onde as informações, motivos, vontades e sentimentos são escavados pelo confrontante, etc. O formalismo do Antonioni, por outro lado, apresenta composições que iniciam a peça com já um rompimento, igualmente sútil aos motivos de Bardot, mas mais graficamente expostos.
Subjetivo (verbo), meu próprio coração agora partido: estranhava a forma como o casal principal tinha facilidade em separar-se, cada um inevitavelmente seguindo seu caminho. Mastroiani, após ter sucumbido ao ataque da - diria louca, mas pode ser uma coisa mais moralista, uma mulher livre (o que ela certamente era) - entra eufórico/apavorado no carro, mas olha Moreau como se algo nela tivesse mudado, ao invés de algo nele. É ele quem, inevitavelmente atraído por e entregue a outras mulheres, começa a estranhar a presença dela - isso poderia ser lido, talvez, pelo comportamento dele como uma natureza; enquanto o comportamento dela é uma mudança -, já que ele não tem o impulso de sobrepôr a distância entre ambos (numa cena que ressalta essa oposição, Antonioni enquadra uma linha negra entre Monica Vitti e Mastroiani, que num movimento a sobrepõe, cortando o que os separa; a câmera se move novamente, colocando a linha entre os dois mais uma vez, dessa vez esperando uma ação dela, que não acontece - a ação dele sem qualquer paralelo em seus enquadramentos com Moreau); ao fim, vem a luz que o comportamento evasivo dela é um processo de introspecção: sua história acontece dentro, mais do que fora; ela eternamente presa nos segundos antes de intervir na luta de rua, tomando uma posição apenas quando uma das pessoas se machuca (ela, na relação; sendo inevitável que os dois saiam sangrando); pelo mesmo motivo, seu biuld up de affair mudo, um jogo de sombra e luz; a mulher como sentimento; ironia que ele seja um escritor? talvez, mas certamente é uma ironia que ele seja citado para si mesmo e, então, irreconheça seus antigos sentimentos e possa, enfim, perceber o fim.
Também: não há enquadramento que não seja brilhante, ou cena que não tenha significado. Ando avesso a filmes longos, mas duas horas pareceram pouco; enfim, até dois anos são pouco para o amor. Engraçado como é libertador ver alguma coisa e lembrar toda a paixão que se sente, ou já se sentiu, em relação a ela, mas esse não deve ser o melhor filme para isso.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
amor não correspondido
aspas
It's the perfect film for people who like to visit all the sights and famous monuments when they're in a strange city ; those who prefer to walk the streets and eavesdrop on people's conversations may be disappointed.
aspas
It's the perfect film for people who like to visit all the sights and famous monuments when they're in a strange city ; those who prefer to walk the streets and eavesdrop on people's conversations may be disappointed.
aspas
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
polítitca!
O negócio dos capitalistas é que eles vêem o capitalismo como uma natureza, não como um sistema econômico-social. A desuminização se dá, dessa forma, com a intuição de que os pobres são simplesmente menos aptos ao livre mercado (um novo processo de seleção natural) e a miséria é como uma árvore de folhas altas que faz as girafas de pescoços curtos morrerem de fome. Por isso Capitalismo Selvagem.
Etc.
Etc.
domingo, 11 de outubro de 2009
A grande coisa da vida é que, bem, a gente cresce estranho. Meio de lado ou como uma árvore; o que, naturalmente, faz muito mais sentido -- mas a impressão de progresso, de cronologia, de retidão é... não sei, urbana?, o bastante para ser desnorteante.
Digo, é como um prédio que depois vira um arranha céu que depois vira... enfim, não sei como vão chamar as aberrações no horizonte de Dubai, mas a idéia é essa. Sempre mais alto, sempre [i]adiante[/i]. E, na maior parte das vezes, a gente sequer supera as coisas, a gente só vê elas diferentes, perdidas numa paisagem imensa de outras coisas, onde elas não se destacam tanto assim. Mas isso parece errado, mesmo assim.
[O que desencadeia o texto, revelo, é Clint Eastwood, do Gorillaz. Mais especificamente, a letra ter passado de absolutamente imbecil para fatalmente bem humorada -- I'm useless, but not for long! The future is coming on!]
E essa impressão de que se deve pôr um passo atrás do outro e subir, subir! , SUBIR! dá uma inevitabilidade estranha na vida - é do que a feito o destino, enfim. Mas a vida não é um caminho sem volta [se fosse seria a morte], e você pode se arrepender e achar essa escolha que você fez uma merda e pensar Hey Vamos Tentar Outra Coisa.
Mas o que me assusta, acho, é que ficar velho é o mesmo que abrir mão de todo o romantismo do mundo [a não ser ficando bem velhinho mesmo, onde o saudosismo da idade, ou do pré-túmulo, perdoa o renascimento do romance]. Talvez pelo anacronismo entre o amor e a idade, talvez porque o amor deixe de ser uma coisa assim linda como parece hoje e vire uma fase - da mesma forma que eu queria ser um Cavaleiro do Zodíaco quando era pequeno, hoje eu quero amar e ser amado [ou enfins], e no futuro eu guardarei ambos [meus mangás e meus amores] com o carinho trágico de não serem bons como eu me lembrava ser. Isso posto, agora é como se eu esperasse pelo dia em que Antes do Amanhecer deixe de ser um dos filmes favoritos e vire uma curiosidade nas estante de dvds/bluerays/energia plasma.
Enfim, não sei exatamente o meu ponto. Eu devo ser um pessimista irremediável, só.
Digo, é como um prédio que depois vira um arranha céu que depois vira... enfim, não sei como vão chamar as aberrações no horizonte de Dubai, mas a idéia é essa. Sempre mais alto, sempre [i]adiante[/i]. E, na maior parte das vezes, a gente sequer supera as coisas, a gente só vê elas diferentes, perdidas numa paisagem imensa de outras coisas, onde elas não se destacam tanto assim. Mas isso parece errado, mesmo assim.
[O que desencadeia o texto, revelo, é Clint Eastwood, do Gorillaz. Mais especificamente, a letra ter passado de absolutamente imbecil para fatalmente bem humorada -- I'm useless, but not for long! The future is coming on!]
E essa impressão de que se deve pôr um passo atrás do outro e subir, subir! , SUBIR! dá uma inevitabilidade estranha na vida - é do que a feito o destino, enfim. Mas a vida não é um caminho sem volta [se fosse seria a morte], e você pode se arrepender e achar essa escolha que você fez uma merda e pensar Hey Vamos Tentar Outra Coisa.
Mas o que me assusta, acho, é que ficar velho é o mesmo que abrir mão de todo o romantismo do mundo [a não ser ficando bem velhinho mesmo, onde o saudosismo da idade, ou do pré-túmulo, perdoa o renascimento do romance]. Talvez pelo anacronismo entre o amor e a idade, talvez porque o amor deixe de ser uma coisa assim linda como parece hoje e vire uma fase - da mesma forma que eu queria ser um Cavaleiro do Zodíaco quando era pequeno, hoje eu quero amar e ser amado [ou enfins], e no futuro eu guardarei ambos [meus mangás e meus amores] com o carinho trágico de não serem bons como eu me lembrava ser. Isso posto, agora é como se eu esperasse pelo dia em que Antes do Amanhecer deixe de ser um dos filmes favoritos e vire uma curiosidade nas estante de dvds/bluerays/energia plasma.
Enfim, não sei exatamente o meu ponto. Eu devo ser um pessimista irremediável, só.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
fatos da vida
A boa mentira consiste em dizer a verdade fora do seu contexto real. Os detalhes a fazem inquestionável, a certeza da sua atuação é inabalável e a única coisa que pode envergonhar é o seu próprio sucesso.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
day zero
Da percepção da arte
O que se falha na percepção é que - o que você não entende e eu gostaria de dizer que ainda, mas talvez um dia eu tenha que dizer nunca entenderá - é que há um pouco de talento, mas é pouco mesmo. O principal está na compreensão. O que proponho é uma libertação - olhar uma coisa totalmente absurda (uma frase errada, um desenho aparentemente torto, um momento no tempo) e conseguir encontrar a arte; da mesma forma, entrar em um filme, uma peça, um livro e renegar a obra (convencionado pelo local de nascimento) como arte. A liberação da influência do Meio na Mensagem.
O que se falha na percepção é que - o que você não entende e eu gostaria de dizer que ainda, mas talvez um dia eu tenha que dizer nunca entenderá - é que há um pouco de talento, mas é pouco mesmo. O principal está na compreensão. O que proponho é uma libertação - olhar uma coisa totalmente absurda (uma frase errada, um desenho aparentemente torto, um momento no tempo) e conseguir encontrar a arte; da mesma forma, entrar em um filme, uma peça, um livro e renegar a obra (convencionado pelo local de nascimento) como arte. A liberação da influência do Meio na Mensagem.
sábado, 23 de maio de 2009
Os Selvagens da Noite (Hill, 1979) funciona apenas como presença, os atores escolhidos mais pela figura do que pela atuação - eles falam pouco, correm bastante e, de movimento em movimento, tem essa pose ereta; é um ar teatral meio Laranja Mecânica, mas substituindo a força visceral e psicótica por uma coisa meio artística, artístico como afetado -, assim como os vilões fazendo carão antes de se tornarem contagem de corpos. Mas isso funciona, porém, pelo mise-en-scène da madrugada urbana; é essa coisa dos anos 80 de metrô e blocos de concreto e pontes de ferro, com pixação de cores, de fogo que surge do nada, e violência, que coloca a cidade como um tipo novo de natureza - e os jovens como seus habitantes naturais - ao invés de civilização, as gangues apenas reforçando a involução social, que torna o instintivo e superficial da história algo quase de honesto. Pontos extras: gente morrendo atropelada pelo metrô.
O Martírio de Joanna D'Arc (Dreyer, 1928) é um exercício de contraste. Não se esperaria atuação menor do que a de Maria Falconetti, num tour de force de close ups solitários em fundos brancos, mas há de se considerar o trabalho composicional do Dreyer - o contraste se dá já na própria fotografia, com pouco entre o monocromático das paredes nuas e as sombras -, intercalando esse tal martírio da personagem, essa série perversa de dúvida loucura certeza dor e divindade, no rosto limpo de Falconetti, com os rostos, quase máscaras renascentistas, dos interrogadores - precisa-se de um coração muito duro para não tomar lado da única coisa que ressoa como realmente genuína na película. Pontos extras: Nicolas Loyseleur interpretado por, pasmei-me, Maurice Schutz.
O Martírio de Joanna D'Arc (Dreyer, 1928) é um exercício de contraste. Não se esperaria atuação menor do que a de Maria Falconetti, num tour de force de close ups solitários em fundos brancos, mas há de se considerar o trabalho composicional do Dreyer - o contraste se dá já na própria fotografia, com pouco entre o monocromático das paredes nuas e as sombras -, intercalando esse tal martírio da personagem, essa série perversa de dúvida loucura certeza dor e divindade, no rosto limpo de Falconetti, com os rostos, quase máscaras renascentistas, dos interrogadores - precisa-se de um coração muito duro para não tomar lado da única coisa que ressoa como realmente genuína na película. Pontos extras: Nicolas Loyseleur interpretado por, pasmei-me, Maurice Schutz.
domingo, 17 de maio de 2009
sábado, 16 de maio de 2009
day zero: filosofias da iliteratura. ato único
Da Inutilidade da Arte
Dentre todas as características que definem a arte, a única que se apresenta como constante é exatamente a inaplicação de uma obra artística.
(Para que a arte seja arte, ela precisa de pelo menos uma das características abaixo,) Vejamos traçando um paralelo entre o resultado material da arte - logo, a arte como uma obra - com um resultado material não-artístico:
A arte deve ser autoral (ou seja, fruto indissociável de quem a produziu. Em hipérbole, um fruto até mesmo indissociável do momento histórico, geográfico e cultural de sua produção) [assim como a assinatura em um quadro ou os créditos em um filme ou a contracapa de uma publicação, uma invenção científica, por exemplo a televisão, tem uma patente que estabelece seu inventor, casualmente: Paul Gottlieb Nipkow; adiante, mantendo a analogia, proponho um paralelo entre as etapas de desenvolvimento científico e o desenvolvimento de movimentos de estilo], necessita de uma especificidade técnica [que não apenas reforça sua característica autoral, como adentra à equação uma incógnita sobrenatural (diz-se: talento, dom) que (1) se manifesta igualmente em áreas não-artísticas e (2) supõe a arte como de aprendizado impossível ou limitado, o que é igualmente uma desverdade, além de que a técnica (assim como sua falta) é característica intrínseca a qualquer ação; ainda nesse ponto, o domínio técnico reforça a possibilidade muito real de analisar uma arte Objetivamente, embora essa seja uma idéia que entra em conflito com:] e resulte em uma experiência estética [que é onde reside mais especificiamente a parte Abstrata da arte e, assim, seu caráter de transcendência meta-artístico, seu cunho emocional. A resposta estética, porém, não está de forma alguma limitada ao contato com a arte - se a arte incorporou essa característica foi em relação ao seu aspecto técnico, de expertise, que convencionou a massa a uma disponibilidade natural à reação estética em relação a arte que é totalmente artificial (exemplificando: quantos dos visitantes do Louvre tem real idéia da magnitude do know-how empregado em certas obras e podem, realmente, apreciar sua execução impecável? isso não impede, porém, que tomados da viciosa aura do altar das grandes obras, eles sejam empurrados a um estado de glória que é psicológico à sua cultura de celebridades ocidental) - e pode surgir do contato com grama, pedra, ou folha seca de três pontas no chão da rua, logo, é igualmente inerente a, novamente e por exemplo, uma televisão].
Isso posto, e mantendo a analogia, pergunta-se: O que difere uma obra de arte de uma televisão? Resposta: todos sabem como usar uma televisão, mas ninguém sabe como usar uma obra de arte. Isso porque, em termos utilitários, uma obra de arte tem como único propósito originar uma experiência estética, que, como vimos, não é de forma alguma resultado único da arte.
Mesmo considerado isso, não se definiu ainda a arte como inútil. Para tanto, é necessário ainda duas faces: Econômica e Intelectual/Cultural.
Posto o cruzamento entre a característica autoral com a experiência estética, propõe-se uma errônea face política na arte que é derrubada dentro das próprias estruturas da arte política: o subjetivo faz com que ela não se sustente enquanto uma forma de atingir as massas. Dessa forma, a arte política tem afeto apenas individual. Considerando o valor de produção de qualquer obra artística ou, para obras artísticas de baixo custo, o sustento do artista enquanto artista, a arte se apresenta como mais uma dispersão [Econômica] da verdadeiras necessidades de um país: educação, salubridade e segurança pública, etc. Por ironia, quanto mais uma obra de arte ou algum tipo de produção artística componha toda uma economia ou indústria em si mesma, ou seja, quanto maior lucro ela proporciona, menor é - e afirmo aqui tratar de uma generalização - sua validade [ou validação crítica] enquanto arte per se.
Isso deixa intocado apenas uma última face: intelectualmente, a arte funciona como composição de uma cultura específica/regional [considerando, novamente, uma obra como fruto de seus meios ambientes, históricos e geográficos] assim como compõe, individualmente, uma cultura extra-indivíduo/social do mundo, da vida e de diferentes culturas. O ponto aqui é que, anulando o político da arte, ela resume-se mais grossamente à entretenimento e prazer, que, assim como a experiência estética, não é único à arte. Isso a faz [1] um processo de masturbação intelectual de auto-indulgência sobre a própria arte que está contido em si mesmo e não tem aplicações posteriores e [2] - parafraseando François Truffaut: se noventa e nove por cento da arte for feita por amor, ainda não seria o bastante - fruto de insatisfação sexual.
Encerro, assim, com a conclusão que (em significado) dá nome ao texto: a arte é inútil.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
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