sábado, 2 de abril de 2011

cenas de sete anos em três meses

(...) porque não via mais uma casa ou uma vida, ou sua identidade nas árvores verdes ou no mar, mas um novo lugar imaginário, uma cidade espiritual que era a beira da praia numa noite fria, com os amigos sentados num círculo e seus olhos iluminados pelas estrelas, reconhecendo-se apenas com a certeza de cada uma das vozes, saindo de dentro do silêncio (que era o da praia tanta quanto era o silêncio fora da janela), dizendo o que diziam e também quem eram; e era o sol de fome daquelas manhãs azuis pela janela-ao-avesso da casa de praia, transbordando dia preguiçosamente na mesa bagunçada de copos sujos e facas usadas, atravessando os vidros e as roupas transparentes, enquanto pelos bocejos ainda úmidos de sereno tocava o som desafinado de um violão recém-desperto; também a calçada de pedras, montada num padrão de onda, e os muitos sapatos coloridos que caminhavam sobre ela, tropeçando em si mesmos e nos outros; e a geladeira que dava choque nas beiradas, o fogão sem tampo, a pia cheia que ninguém queria lavar; ou as casas com três quartos, que dormiam com dois deles vazios, porque todos dividiam o mesmo, acarpetando o chão com os corpos seminus de calor, e o som das respirações pesadas pela escuridão, e os rostos antes de lavados olhando uns para os outros, as vozes duras, a preguiça estampada nos olhos, o revirar na cama como filhotes com tanta vida pela frente que podiam desperdiçar um dia ou dois; e as noites que pareciam durar um eternidade, até a manhã arriscar clarear o sol e tudo parecer que aconteceu muito rápido e apressado, e nós comíamos algum sanduíche, bêbados do resto de álcool e de sono e de amor, rindo (e compartilhando) dos nossos maiores arrependimentos, sentido a dor de acordar no outro dia, mas já marcando o próximo suicídio pelos bares escuros, envolvidos pelas mesmas músicas, caindo eventualmente nos mesmos abraços quando encontrávamos uns aos outros depois de perdidos por horas, mesmo aprisionados no mesmo espaço; (...)

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