(...) porque não via mais uma casa ou uma vida, ou sua identidade nas árvores verdes ou no mar, mas um novo lugar imaginário, uma cidade espiritual que era a beira da praia numa noite fria, com os amigos sentados num círculo e seus olhos iluminados pelas estrelas, reconhecendo-se apenas com a certeza de cada uma das vozes, saindo de dentro do silêncio (que era o da praia tanta quanto era o silêncio fora da janela), dizendo o que diziam e também quem eram; e era o sol de fome daquelas manhãs azuis pela janela-ao-avesso da casa de praia, transbordando dia preguiçosamente na mesa bagunçada de copos sujos e facas usadas, atravessando os vidros e as roupas transparentes, enquanto pelos bocejos ainda úmidos de sereno tocava o som desafinado de um violão recém-desperto; também a calçada de pedras, montada num padrão de onda, e os muitos sapatos coloridos que caminhavam sobre ela, tropeçando em si mesmos e nos outros; e a geladeira que dava choque nas beiradas, o fogão sem tampo, a pia cheia que ninguém queria lavar; ou as casas com três quartos, que dormiam com dois deles vazios, porque todos dividiam o mesmo, acarpetando o chão com os corpos seminus de calor, e o som das respirações pesadas pela escuridão, e os rostos antes de lavados olhando uns para os outros, as vozes duras, a preguiça estampada nos olhos, o revirar na cama como filhotes com tanta vida pela frente que podiam desperdiçar um dia ou dois; e as noites que pareciam durar um eternidade, até a manhã arriscar clarear o sol e tudo parecer que aconteceu muito rápido e apressado, e nós comíamos algum sanduíche, bêbados do resto de álcool e de sono e de amor, rindo (e compartilhando) dos nossos maiores arrependimentos, sentido a dor de acordar no outro dia, mas já marcando o próximo suicídio pelos bares escuros, envolvidos pelas mesmas músicas, caindo eventualmente nos mesmos abraços quando encontrávamos uns aos outros depois de perdidos por horas, mesmo aprisionados no mesmo espaço; (...)
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