Eu vejo uma ligação clara entre as produções do Antonioni e do Godard - apesar delas serem obviamente distintas, pela simples questão autoral de estilo; Godard muito mais novo e pós-moderno, enquanto Antonioni é muito mais formal (embora, com o passar dos anos, ele foi se tornando cada vez mais visceral, talvez até... adolescente? rock'n'roll, sexo, low lifes, etc - fruto da sua inserção no mercado inglês-americano? talvez sua visão cinista da América? Profissão: Repórter é um filme sobre perda da identidade e fruto de um parto longo - considerando a freqüência e o vigor que ele experimentou até ~62, também seu terceiro filme americano, etc etc); mas ambos parecem dividirem uma mesma alma, um mesmo número de valores - romances em crise, palavras sobre sentimentos, personagens artistas ou de comportamento artísticos, alienação & contato, etc.
A Noite me parece intimamente conectado a'O Desprezo, dois contos sobre o desfalecer de uma relação, apesar das abordagens diferentes - a criação de Godard é obviamente mais orgânica, resolvida em brilhantes quase hora de conversas e discussões, de onde as informações, motivos, vontades e sentimentos são escavados pelo confrontante, etc. O formalismo do Antonioni, por outro lado, apresenta composições que iniciam a peça com já um rompimento, igualmente sútil aos motivos de Bardot, mas mais graficamente expostos.
Subjetivo (verbo), meu próprio coração agora partido: estranhava a forma como o casal principal tinha facilidade em separar-se, cada um inevitavelmente seguindo seu caminho. Mastroiani, após ter sucumbido ao ataque da - diria louca, mas pode ser uma coisa mais moralista, uma mulher livre (o que ela certamente era) - entra eufórico/apavorado no carro, mas olha Moreau como se algo nela tivesse mudado, ao invés de algo nele. É ele quem, inevitavelmente atraído por e entregue a outras mulheres, começa a estranhar a presença dela - isso poderia ser lido, talvez, pelo comportamento dele como uma natureza; enquanto o comportamento dela é uma mudança -, já que ele não tem o impulso de sobrepôr a distância entre ambos (numa cena que ressalta essa oposição, Antonioni enquadra uma linha negra entre Monica Vitti e Mastroiani, que num movimento a sobrepõe, cortando o que os separa; a câmera se move novamente, colocando a linha entre os dois mais uma vez, dessa vez esperando uma ação dela, que não acontece - a ação dele sem qualquer paralelo em seus enquadramentos com Moreau); ao fim, vem a luz que o comportamento evasivo dela é um processo de introspecção: sua história acontece dentro, mais do que fora; ela eternamente presa nos segundos antes de intervir na luta de rua, tomando uma posição apenas quando uma das pessoas se machuca (ela, na relação; sendo inevitável que os dois saiam sangrando); pelo mesmo motivo, seu biuld up de affair mudo, um jogo de sombra e luz; a mulher como sentimento; ironia que ele seja um escritor? talvez, mas certamente é uma ironia que ele seja citado para si mesmo e, então, irreconheça seus antigos sentimentos e possa, enfim, perceber o fim.
Também: não há enquadramento que não seja brilhante, ou cena que não tenha significado. Ando avesso a filmes longos, mas duas horas pareceram pouco; enfim, até dois anos são pouco para o amor. Engraçado como é libertador ver alguma coisa e lembrar toda a paixão que se sente, ou já se sentiu, em relação a ela, mas esse não deve ser o melhor filme para isso.
A Noite me parece intimamente conectado a'O Desprezo, dois contos sobre o desfalecer de uma relação, apesar das abordagens diferentes - a criação de Godard é obviamente mais orgânica, resolvida em brilhantes quase hora de conversas e discussões, de onde as informações, motivos, vontades e sentimentos são escavados pelo confrontante, etc. O formalismo do Antonioni, por outro lado, apresenta composições que iniciam a peça com já um rompimento, igualmente sútil aos motivos de Bardot, mas mais graficamente expostos.
Subjetivo (verbo), meu próprio coração agora partido: estranhava a forma como o casal principal tinha facilidade em separar-se, cada um inevitavelmente seguindo seu caminho. Mastroiani, após ter sucumbido ao ataque da - diria louca, mas pode ser uma coisa mais moralista, uma mulher livre (o que ela certamente era) - entra eufórico/apavorado no carro, mas olha Moreau como se algo nela tivesse mudado, ao invés de algo nele. É ele quem, inevitavelmente atraído por e entregue a outras mulheres, começa a estranhar a presença dela - isso poderia ser lido, talvez, pelo comportamento dele como uma natureza; enquanto o comportamento dela é uma mudança -, já que ele não tem o impulso de sobrepôr a distância entre ambos (numa cena que ressalta essa oposição, Antonioni enquadra uma linha negra entre Monica Vitti e Mastroiani, que num movimento a sobrepõe, cortando o que os separa; a câmera se move novamente, colocando a linha entre os dois mais uma vez, dessa vez esperando uma ação dela, que não acontece - a ação dele sem qualquer paralelo em seus enquadramentos com Moreau); ao fim, vem a luz que o comportamento evasivo dela é um processo de introspecção: sua história acontece dentro, mais do que fora; ela eternamente presa nos segundos antes de intervir na luta de rua, tomando uma posição apenas quando uma das pessoas se machuca (ela, na relação; sendo inevitável que os dois saiam sangrando); pelo mesmo motivo, seu biuld up de affair mudo, um jogo de sombra e luz; a mulher como sentimento; ironia que ele seja um escritor? talvez, mas certamente é uma ironia que ele seja citado para si mesmo e, então, irreconheça seus antigos sentimentos e possa, enfim, perceber o fim.
Também: não há enquadramento que não seja brilhante, ou cena que não tenha significado. Ando avesso a filmes longos, mas duas horas pareceram pouco; enfim, até dois anos são pouco para o amor. Engraçado como é libertador ver alguma coisa e lembrar toda a paixão que se sente, ou já se sentiu, em relação a ela, mas esse não deve ser o melhor filme para isso.
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