sábado, 16 de maio de 2009

day zero: filosofias da iliteratura. ato único

Da Inutilidade da Arte

Dentre todas as características que definem a arte, a única que se apresenta como constante é exatamente a inaplicação de uma obra artística.

(Para que a arte seja arte, ela precisa de pelo menos uma das características abaixo,) Vejamos traçando um paralelo entre o resultado material da arte - logo, a arte como uma obra - com um resultado material não-artístico:

A arte deve ser autoral (ou seja, fruto indissociável de quem a produziu. Em hipérbole, um fruto até mesmo indissociável do momento histórico, geográfico e cultural de sua produção) [assim como a assinatura em um quadro ou os créditos em um filme ou a contracapa de uma publicação, uma invenção científica, por exemplo a televisão, tem uma patente que estabelece seu inventor, casualmente: Paul Gottlieb Nipkow; adiante, mantendo a analogia, proponho um paralelo entre as etapas de desenvolvimento científico e o desenvolvimento de movimentos de estilo], necessita de uma especificidade técnica [que não apenas reforça sua característica autoral, como adentra à equação uma incógnita sobrenatural (diz-se: talento, dom) que (1) se manifesta igualmente em áreas não-artísticas e (2) supõe a arte como de aprendizado impossível ou limitado, o que é igualmente uma desverdade, além de que a técnica (assim como sua falta) é característica intrínseca a qualquer ação; ainda nesse ponto, o domínio técnico reforça a possibilidade muito real de analisar uma arte Objetivamente, embora essa seja uma idéia que entra em conflito com:] e resulte em uma experiência estética [que é onde reside mais especificiamente a parte Abstrata da arte e, assim, seu caráter de transcendência meta-artístico, seu cunho emocional. A resposta estética, porém, não está de forma alguma limitada ao contato com a arte - se a arte incorporou essa característica foi em relação ao seu aspecto técnico, de expertise, que convencionou a massa a uma disponibilidade natural à reação estética em relação a arte que é totalmente artificial (exemplificando: quantos dos visitantes do Louvre tem real idéia da magnitude do know-how empregado em certas obras e podem, realmente, apreciar sua execução impecável? isso não impede, porém, que tomados da viciosa aura do altar das grandes obras, eles sejam empurrados a um estado de glória que é psicológico à sua cultura de celebridades ocidental) - e pode surgir do contato com grama, pedra, ou folha seca de três pontas no chão da rua, logo, é igualmente inerente a, novamente e por exemplo, uma televisão].

Isso posto, e mantendo a analogia, pergunta-se: O que difere uma obra de arte de uma televisão? Resposta: todos sabem como usar uma televisão, mas ninguém sabe como usar uma obra de arte. Isso porque, em termos utilitários, uma obra de arte tem como único propósito originar uma experiência estética, que, como vimos, não é de forma alguma resultado único da arte.

Mesmo considerado isso, não se definiu ainda a arte como inútil. Para tanto, é necessário ainda duas faces: Econômica e Intelectual/Cultural.

Posto o cruzamento entre a característica autoral com a experiência estética, propõe-se uma errônea face política na arte que é derrubada dentro das próprias estruturas da arte política: o subjetivo faz com que ela não se sustente enquanto uma forma de atingir as massas. Dessa forma, a arte política tem afeto apenas individual. Considerando o valor de produção de qualquer obra artística ou, para obras artísticas de baixo custo, o sustento do artista enquanto artista, a arte se apresenta como mais uma dispersão [Econômica] da verdadeiras necessidades de um país: educação, salubridade e segurança pública, etc. Por ironia, quanto mais uma obra de arte ou algum tipo de produção artística componha toda uma economia ou indústria em si mesma, ou seja, quanto maior lucro ela proporciona, menor é - e afirmo aqui tratar de uma generalização - sua validade [ou validação crítica] enquanto arte per se.

Isso deixa intocado apenas uma última face: intelectualmente, a arte funciona como composição de uma cultura específica/regional [considerando, novamente, uma obra como fruto de seus meios ambientes, históricos e geográficos] assim como compõe, individualmente, uma cultura extra-indivíduo/social do mundo, da vida e de diferentes culturas. O ponto aqui é que, anulando o político da arte, ela resume-se mais grossamente à entretenimento e prazer, que, assim como a experiência estética, não é único à arte. Isso a faz [1] um processo de masturbação intelectual de auto-indulgência sobre a própria arte que está contido em si mesmo e não tem aplicações posteriores e [2] - parafraseando François Truffaut: se noventa e nove por cento da arte for feita por amor, ainda não seria o bastante - fruto de insatisfação sexual.

Encerro, assim, com a conclusão que (em significado) dá nome ao texto: a arte é inútil.

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