(é sobre esse documentário: http://www.youtube.com/watch?v=PRQ1LuBWoLg
e escrevi isso como resposta num fórum, então o número 1 tá meio sem contexto, mas é importante no 2, então enfim)
1
- eu gosto do carlin. ele não é muito engraçado e o que ele faz é mais
uma espécie de ensaio do que stand up, mas eu acho que ele
ocasionalmente levanta alguns bons pontos e, enfim, eu gosto de ouvir as
pessoas falando. não acho ele nocivo, apesar de superestimado, mas ele é
super com uma certa razão: o que ele fazia era bem específico e mais
substancial do que o que faziam mesmo os melhores stand ups da época.
aliás, o louis ck ~é~ o novo carlin (mesmo que meio a contragosto,
porque ele não é especificamente político): o stand up dele vem se
transformando gradativamente - os primeiros especiais dele eram bem mais
baseados em piadas, tinham imitações, eram menos uma narrativa sobre a
vida dele e tal. e o loius ck é abertamente fã do carlin, falou no
memorial dele e chorou, e meio escancarou essa mudança de paradigma no
humor dele (que é menos engraçado, mas mais recompensante, um humor cada
vez mais melancólico e profundo, e a série é onde isso chega ao ápice,
pegando meio a tensão entre a postura confrontacional de liberação/humor
do stand up e a ansiedade social observacional e intimista de onde
surge o texto)
2
- tem uma mulher no começo do documentário que levanta um ponto que eu
acho que passa sempre meio batido, de que muito do humor vem de uma
subversão da narrativa (ela chama de quebra, enfim) que é meio amoral.
tipo,
pegando o próprio louis ck, ele com muita frenquência é racista e
preconceituoso, mas nunca é ofensivo porque a inserção disso é como uma
anomalia do discurso, como non sequitur, quebrando o andamento da
história de uma maneira escatológica, mas o discurso maior (político) do
stand up permanece - ele faz, por exemplo, piadas de estupro, mas o
estupro tá sempre inserido como agresão, nunca como prática sexual, que é
um dos pontos que a lola levanta no documentário.
e
isso é que fode nesse stand up brasileiro de merda, é um problema não
só temático, mas formal: o preconceito não tá lá como um corpo estranho,
mas como a ordem do discurso; ele não é o que ofende pelo absurdo, ele é
a conclusão lógica de uma cultura real, enfim, não é a variação da
narrativa, é a própria narrativa. outro aspecto formal que é babaca é o
próprio refinamento da apresentação, mesmo. tipo, olha no documentário
quantas piadas começam com ~ela é tão gorda que~, ~ela é tão feia que~,
que basicamente anulam a possibilidade do insight e, né, estrutura
determinista, reducionista, me escapa a palavra certa, enfim. o que fode
aqui é isso, a noção de que fazer rir é mais importante, como se não
existisse no discurso público uma responsabilidade política, e como se
problematizar isso fosse uma questão de censura, e não de autocrítica
(não a toa os caras que reclamam disso são os que baseiam a persona
artística deles inteira em ser arrogantes, mais inteligentes que todo
mundo, acima do bem e do mal, etc).
3
- de resto, meio esperado: os caras que fazem coisas boas têm opiniões
boas, os que fazem coisas ruins têm opiniões retardadas. nada
surpreendente, né.
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